sábado, 24 de novembro de 2007

O PRÍNCIPE - CAPÍTULO X

CAPÍTULO X
COMO SE DEVEM MEDIR AS FORÇAS DE TODOS OS PRINCIPADOS
(QUOMODO OMNIUM PRINCIPATUUM VIRES PERPENDI DEBEANT)


Ao examinar as qualidades destes Estados, convém fazer uma outra
consideração, isto é, se um príncipe tem Estado tão grande e forte que
possa, precisando, manter-se por si mesmo, ou então se tem sempre
necessidade da defesa de outrem. Para esclarecer melhor esta parte,
digo julgar como podendo manter-se por si mesmos aqueles que podem,
por abundância de homens e de dinheiro, organizar um exército à altura
do perigo a enfrentar e fazer face a uma batalha contra quem venha
assaltá-lo, assim como julgo necessitados da defesa de outrem os que
não podem defrontar o inimigo em campo aberto, mas são obrigados a
refugiar-se atrás dos muros da cidade, guarnecendo-os. Quanto ao
primeiro caso já foi falado e, futuramente, diremos o que for
necessário; relativamente ao segundo, não se pode aduzir algo mais do
que exortar tais príncipes a fortificarem e a proverem sua cidade, não
se preocupando com o território que a contorna. E quem tiver bem
fortificada sua cidade e, acerca dos outros assuntos, se tenha
conduzido para com os súditos como acima foi dito e abaixo se
esclarecerá, será sempre assaltado com grande temor, porque os homens
são sempre inimigos dos empreendimentos onde vejam dificuldades, e não
se pode encontrar facilidade para atacar quem tenha sua cidade forte e
não seja odiado pelo povo.


As cidades da Alemanha gozam de grande liberdade, têm pouco território
e obedecem ao imperador quando assim querem, não temendo nem a este
nem a outro poderoso que lhes esteja ao derredor porque são de tal
forma fortificadas que todos pensam dever ser enfadonha e difícil sua
expugnação. Na verdade, todas têm fossos e muros adequados, possuem
artilharia suficiente, conservam sempre nos armazéns públicos o
necessário para beber, comer e arder por um ano; além disso, para
manter a plebe alimentada sem prejuízo do povo, têm sempre, em comum,
por um ano, meios para lhe dar trabalho naquelas atividades que sejam
o nervo e a vida daquelas cidades e das indústrias das quais a plebe
se alimente. Têm em grande conceito os exercícios militares, a
respeito dos quais têm muitas leis de regulamentação.


Um príncipe, pois, que tenha uma cidade forte e não se faça odiar, não
pode ser atacado e, existindo alguém que o assaltasse, retirar-se-ia
com vergonha, eis que as coisas do mundo são assim tão variadas que é
quase impossível alguém pudesse ficar com os exércitos ociosos por um
ano, a assediá-lo. A quem replicasse que, tendo as suas propriedades
fora da cidade e vendo-as a arder, o povo não terá paciência e o longo
assédio e a piedade de si mesmo o farão esquecer o príncipe, eu
responderia que um príncipe poderoso e afoito superará sempre aquelas
dificuldades, ora dando aos súditos esperança de que o mal não será
longo, ora incutindo temor da crueldade do inimigo, ora assegurando-se
com destreza daqueles que lhe pareçam muito temerários. Além disso, é
razoável que o inimigo deva queimar o país apenas chegado, nos tempos
em que o ânimo dos homens está ainda ardente e voluntarioso na defesa;
por isso, o príncipe deve ter pouca dúvida porque, depois de alguns
dias, quando os ânimos estão mais frios, os danos já foram causados,
os males já foram sofridos e não há mais remédio; então, os súditos
vêm se unir ainda mais ao semi príncipe, parecendo-lhes que este lhes
deva obrigação, uma vez que suas casas foram incendiadas e suas
propriedades arruinadas para a defesa do mesmo. E a natureza dos
homens é aquela de obrigar-se tanto pelos benefícios que são feitos
como por aqueles que se recebem. Donde, em se considerando tudo bem,
não será difícil a um príncipe prudente conservar firmes, antes e
depois do cerco, os ânimos de seus cidadãos, desde que não faltem
víveres nem meios de defesa.

O PRÍNCIPE - CAPÍTULO XI

CAPÍTULO XI
DOS PRINCIPADOS ECLESIÁSTICOS
(DE PRINCIPATIBUS ECLESIASTICIS)


Resta-nos somente, agora, falar dos principados eclesiásticos, nos
quais todas as dificuldades existem antes que se os possuam, eis que
são adquiridos ou pela virtude ou pela fortuna, e sem uma e outra se
conservam, porque são sustentados pelas ordens de há muito
estabelecidas na religião; estas tornam-se tão fortes e de tal
natureza que mantêm os seus príncipes sempre no poder, seja qual for o
modo por que procedam e vivam. Só estes possuem Estados e não os
defendem; súditos, e não os governam; os Estados, por serem indefesos,
não lhes são tomados; os súditos, por não serem governados, não se
preocupam, não pensam e nem podem separar-se deles. Somente estes
principados, pois, são seguros e felizes. Mas, sendo eles dirigidos
por razão superior, à qual a mente humana não atinge, deixarei de
falar a seu respeito,mesmo porque, sendo engrandecidos e mantidos por
Deus, seria obra de homem presunçoso e temerário dissertar a seu
respeito. Contudo, se alguém me perguntar donde provém que a Igreja,
no poder temporal, tenha chegado a tanta grandeza, pois que antes de
Alexandre os potentados italianos, e não apenas aqueles que eram ditos
"potentados" mas qualquer barão e senhor, mesmo que sem importância,
pouco valor davam ao poder temporal da Igreja, e agora um rei de
França treme, ela pode expulsá-lo da Itália e ainda logra arruinar os
venezianos, apontarei fatos que, a despeito de conhecidos, não me
parece supérfluo reavivar em parte na memória.


Antes que Carlos, rei da França, invadisse a Itália, esta província
encontrava-se sob o domínio do Papa, dos venezianos, do rei de
Nápoles, do duque de Milão e dos florentinos. Estes potentados tinham
de se haver com dois cuidados principais: um, que nenhum estrangeiro
entrasse na Itália com tropas; o outro, que nenhum deles ocupasse mais
Estado. Aqueles dos quais se tinha mais receio eram o Papa e os
venezianos. Para conter os venezianos tornou-se necessária a união de
todos os demais, como ocorreu na defesa de Ferrara; para deter o Papa,
serviam-se dos barões de Roma, eis que. estando divididos em duas
facções, Orsíni e Colonna, sempre existia motivo de discórdia entre
eles e, estando de arma em punho sob os olhos do pontífice, mantinham
o pontificado fraco e inseguro. Se bem surgisse, vez por outra, um
Papa animoso, como foi Xisto, nem a sua fortuna nem o seu saber
puderam livrá-lo desses inconvenientes. A brevidade da vida dos
pontífices era a causa dessa situação, porque, nos dez anos que, em
média, vivia um Papa, somente com muita dificuldade podia ele
enfraquecer uma das facções; se, por exemplo, um deles tivesse quase
extinguindo os collonessi surgia um outro, inimigo dos Orsíni, que os
fazia ressurgir sem que tivesse tempo de liquidar os Orsíni. Isto
tornava o poder temporal do Papa pouco considerado na Itália.


Surgiu depois Alexandre VI que, de todos os pontífices que já
existiram, foi o que mostrou o quanto um Papa podia, com o dinheiro e
as tropas, para adquirir maior poder; e fez, com o uso do Duque
Valentino como instrumento e com a oportunidade da invasão dos
franceses, todas aquelas coisas que relatei acima com relação às ações
do duque. Se bem seu intento não fosse o de tornar grande a Igreja mas
sim o duque, não obstante, tudo o que fez reverteu em favor da
grandeza da Igreja, a qual, após a sua morte, extinto o duque, se
tornou herdeira de sua obra. Veio depois o Papa Júlio e encontrou a
Igreja grande, possuindo toda a Romanha, reduzidos à impotência os
barões de Roma e, pelas perseguições de Alexandre, anuladas aquelas
facções; encontrou, ainda, o caminho aberto para acumular dinheiro, o
que jamais havia sido feito antes de Alexandre.


Júlio não só seguiu tais práticas, como as ampliou; pensou em
conquistar Bolonha, extinguir os venezianos e expulsar os franceses da
Itália: todos esses empreendimentos lhe saíram bem, e com tanto maior
louvor quanto realizou tudo isso para engrandecer a Igreja e não para
favorecer algum cidadão particular. Conservou, ainda, os partidos dos
Orsíni e dos Colonna nas mesmas condições em que os encontrara e, se
bem entre eles houvesse algum chefe capaz de fazer mudar a situação,
duas coisas os mantiveram quietos: uma, a grandeza da Igreja, que os
atemorizava; a outra, não terem eles cardeais, os quais são os
causadores dos tumultos entre as facções. Nem em tempo algum ficarão
quietas essas partes, desde que possuam cardeais, pois estes sustentam
os partidos dentro e fora de Roma e os barões são forçados a defendê-
los; assim, da ambição dos prelados, nascem as discórdias e os
tumultos entre os barões. Sua Santidade, o Papa Leão, encontrou o
pontificado potentíssimo e, espera-se, se aqueles que referimos o
fizeram grande pelas armas, este o fará ainda maior e mais venerado
pela bondade e suas outras infinitas virtudes.

O PRÍNCIPE - CAPÍTULO XII

CAPÍTULO XII
DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO AS MILÍCIAS, E DOS SOLDADOS MERCENÁRIOS
(QUOT SINT GENERA MILITIAE ET DE MERCENARIIS MILITIBUS)


Tendo falado detalhadamente de todas as espécies de principados, dos
quais já no início me propus comentar, e consideradas, em alguns
pontos, as causas do bem-estar e do mal-estar dos mesmos, mostrados
que foram os modos pelos quais muitos procuraram adquiri-los e
conservá-los, resta-me agora falar de forma genérica dos meios
ofensivos e defensivos que em cada um dos citados principados possam
ocorrer, Dissemos acima como é necessário a um príncipe ter bons
fundamentos; do contrário, necessariamente, cairá em ruína. Os
principais fundamentos que os Estados têm, tanto os novos como os
velhos ou os mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não
pode haver boas leis onde não existam boas armas e onde existam boas
armas convém que haja boas leis, deixarei de falar das leis e me
reportarei apenas às armas.


Digo, pois, que as armas com as quais um príncipe defende o seu
Estado, ou são suas próprias ou são mercenárias, ou auxiliares ou
mistas. As mercenárias e as auxiliares são inúteis e perigosas e, se
alguém tem o seu Estado apoiado nas tropas mercenárias, jamais estará
firme e seguro, porque elas são desunidas, ambiciosas,
indisciplinadas, infiéis; galhardas entre os amigos, vis entre os
inimigos; não têm temor a Deus e não têm fé nos homens, e tanto se
adia a ruína, quanto se transfere o assalto; na paz se é espoliado por
elas, na guerra, pelos inimigos. A razão disto é que elas não têm
outro amor nem outra razão que as mantenha em campo, a não ser um
pouco de soldo, o qual não é suficiente para fazer com que queiram
morrer por ti. Querem muito ser teus soldados enquanto não estás em
guerra, mas, quando esta surge, querem fugir ou ir embora.


Para persuadir de tais coisas não me é necessária muita fadiga, eis
que a atual ruína da Itália não foi causada por outro fator senão o de
ter, por espaço de muitos anos, repousado sobre as armas mercenárias.
Elas já fizeram algo em favor de alguns e pareciam galhardas nas lutas
entre si; mas, quando surgiu o estrangeiro, mostraram-lhe o que eram.
Por isso foi possível a Carlos, rei de França, tomar a Itália com o
giz; e quem disse que a causa disso foram os nossos pecados, dizia a
verdade, se bem que esses pecados não fossem aqueles que ele julgava,
mas sim esses que eu narrei, e como eram pecados de príncipes, estes
sofreram o castigo.


Quero demonstrar melhor a infeliz qualidade destas tropas. Os capitães
mercenários ou são homens excelentes, ou não: se o forem, não podes
confiar, porque sempre aspirarão à própria grandeza, abatendo a ti que
és o seu patrão, ou oprimindo os outros contra a tua vontade; mas se
não forem grandes chefes, certamente te levarão à ruína. E, se for
respondido que qualquer um que detenha as forças nas mãos fará isso,
mercenário ou não, responderei dizendo como as armas devem ser usadas
por um príncipe ou por uma República. O príncipe deve ir pessoalmente
com as tropas e exercer as atribuições do capitão: a República deve
mandar seus cidadãos e, quando enviar um que não se revele valente,
deve substitui-lo, quando animoso deve detê-lo com as leis para que
não avance além do limite. Por experiência se vêem príncipes sós e
repúblicas armadas fazerem grandes progressos, enquanto se vêem tropas
mercenárias não causarem mais do que danos. Ainda, uma República
armada de tropas próprias se submete ao domínio de um seu cidadão com
muito maior dificuldade do que aquela que esteja protegida por tropas
mercenárias ou auxiliares.


Roma e Esparta foram durante muitos séculos armadas e livres, Os
suíços são armadíssimos e libérrimos, Das armas mercenárias antigas,
podemos citar como exemplo os cartagineses, os quais quase foram
oprimidos por seus soldados mercenários, ao fim da primeira guerra com
os romanos, a despeito de terem por chefes os próprios cidadãos de
Cartago. Felipe da Macedônia foi pelos tebanos feito capitão de sua
gente, depois da morte de Epaminondas, e após a vitória lhes tolheu a
liberdade, Os milaneses, morto o Duque Felipe, assalariaram Francisco
Sforza para combater os venezianos e o mesmo, vencidos os inimigos em
Caravaggio, a estes se uniu para oprimir os milaneses, seus patrões.
Sforza, seu pai, estando a serviço da Rainha Joana de Nápoles, deixou-
a repentinamente desarmada; por isso ela, para não perder o reino, foi
obrigada a lançar-se aos braços do Rei de Aragão.


E se venezianos e florentinos, ao contrário, tiveram aumentado o seu
domínio com essas tropas, e os seus capitães se fizeram príncipes mas
os defenderam, esclareço que os florentinos, neste caso, foram
favorecidos pela sorte, porque dos capitães de valor, aos quais podiam
temer, alguns não venceram ou tiveram de lutar contra antagonistas,
outros voltaram sua ambição para paragens diversas. Quem não venceu
foi Giovanni Aucut, por isso mesmo não se podendo conhecer de sua
fidelidade, mas todos estarão concordes que, tivesse vencido, os
florentinos estariam à sua mercê. Sforza sempre teve os Braccio contra
si, vigiando-se uns aos outros. Francisco voltou sua ambição para a
Lombardia, Braccio contra a Igreja e o reino de Nápoles. Mas, vejamos
o que ocorreu há pouco tempo. Os florentinos fizeram Paulo Vitelli seu
capitão, homem de muita prudência e que, de vida privada, havia
alcançado mui grande reputação. Se ele conquistasse Pisa, não haveria
quem negasse convir aos florentinos estar sob suas ordens, mesmo
porque, se ele tivesse ficado como soldado de seus inimigos, não
teriam remédio e, tendo-o ao seu lado, deveriam obedecer-lhe.


Os venezianos, se se considerar os seus progressos, ver-se-á terem
operado segura e gloriosamente enquanto fizeram a guerra sozinhos (o
que foi antes de voltarem suas vistas para a terra) sendo que, com o
apoio dos gentis-homens e com a plebe armada, operaram mui
galhardamente; mas, como eles começaram a combater em terra,
abandonaram essa prudência e seguiram os costumes de guerra da Itália.
No princípio de sua expansão terrestre, por não possuírem muito Estado
e por usufruírem alta reputação, não precisavam temer muito seus
capitães; mas, quando ampliaram suas conquistas, o que ocorreu sob o
Carmignola, tiveram a prova desse erro. Por tanto, tendo visto seu
valor quando sob seu comando bateram o duque de Milão e sentindo, de
outra parte, quanto ele esfriara no conduzir a guerra, julgaram não
mais ser possível com ele vencer dada a sua má vontade; e não podendo
licenciá-lo para não perder aquilo que tinham adquirido, para se
garantirem viram-se na contingência de matá-lo, Tiveram depois por
seus capitães Bartolomeu e Bergamo, Roberto de São Severino, Conde de
Pitigliano e outros parecidos, com os quais deviam temer as derrotas e
não suas conquistas, como ocorreu depois em Vailá, onde, num dia,
perderam tudo aquilo que, em oitocentos anos, com tanta fadiga, tinham
conquistado. Na verdade, destas tropas resultam apenas lentas, tardias
e fracas conquistas, mas rápidas e miraculosas perdas. E, como
apresentei estes exemplos da Itália que tem sido por muitos anos
dominada por armas mercenárias, quero analisar essas tropas por forma
mais genérica, a fim de que, vendo a origem e o desenvolvimento das
mesmas, se possa melhor corrigir o erro de seu emprego.


Deveis, pois, saber como, logo que nestes últimos anos o império
começou a ser repelido da Itália e o Papa passou a ter reputação no
poder temporal, a Itália dividiu-se em vários Estados. Na verdade,
muitas das maiores cidades tomaram das armas contra seus nobres, os
quais, antes favorecidos pelo imperador, as mantinham oprimidas, e a
Igreja, para obter reputação em seu poder temporal, as favorecia em
tal; de muitas outras, os seus cidadãos se tornaram príncipes.


Daí resultar que, tendo a Itália quase toda, chegado a cair nas mãos
da Igreja e de algumas repúblicas, não estando aqueles padres e
aqueles outros cidadãos habituados ao uso das armas, começaram a
aliciar mercenários estrangeiros. O primeiro que deu fama a essa
milícia foi Alberico da Conio, natural da Romanha, sendo que de sua
escola de armas vieram, dentre outros, Braccio e Sforza, nos seus dias
os árbitros da Itália. Depois destes vieram todos os outros que até
nossos tempos têm chefiado essas tropas, e o fim do valor das mesmas
foi que a Itália viu-se percorrida por Carlos, saqueada por Luís,
violentada por Fernando e desonrada pelos suíços.


A ordem que eles observaram inicialmente foi, para dar reputação a si
próprios, tirar o conceito da infantaria, Fizeram isso porque, sendo
eles sem Estado e vivendo da indústria das armas, poucos infantes não
lhes dariam fama e, sendo muitos, não poderiam alimentá-los; assim,
limitaram-se à cavalaria onde, com número suportável, as tropas podiam
ser nutridas e eles honrados. E, afinal, a situação tornou-se tal que,
em um exército de vinte mil soldados, não se encontravam dois mil
infantes. Tinham, além disso, usado todos os meios para afastar de si
e de seus soldados o cansaço e o medo, não se matando nos combates,
fazendo-se prisioneiros uns aos outros e libertando-se depois sem
resgate. Não atacavam as cidades muradas e os das cidades não
assaltavam os acampamentos; não faziam nem estacadas nem fossos, não
saíam a campo no inverno. Todas estas coisas eram permitidas nas suas
regras militares, por eles encontradas para fugir, como foi dito, à
fadiga e aos perigos; foi por isso que arrastaram a Itália à
escravidão e à desonra.




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O PRÍNCIPE - CAPÍTULO XIII

CAPÍTULO XIII
DOS SOLDADOS AUXILIARES, MISTOS E PRÓPRIOS
(DE MILITIBUS AUXILIARIIS, MIXTIS ET PROPRIIS)


As tropas auxiliares, que são as outras forças inúteis, são aquelas
que se apresentam quando chamas um poderoso para que, com seus
exércitos, te venha ajudar e defender, como fez em tempos recentes o
Papa Júlio que, tendo visto na campanha de Ferrara a triste figura de
suas tropas mercenárias, voltou-se para as auxiliares e entrou em
acordo com Fernando, rei da Espanha, no sentido de que este, com sua
gente e armas, viesse ajudá-lo. Estas tropas auxiliares podem ser
úteis e boas para si mesmas, mas, para quem as chame, são quase sempre
danosas, eis que perdendo ficas liquidado, vencendo ficas seu
prisioneiro.


E, ainda que destes exemplos estejam cheias as antigas histórias, não
quero abandonar esta recente lição de Júlio II, cuja deliberação de
entregar-se inteiramente às mãos de um estrangeiro, por querer
Ferrara, não podia ter sido mais insensata. Mas a boa sorte fez surgir
uma terceira circunstância, a fim de que não viesse ele a colher o
resultado de sua má decisão; sendo os seus auxiliares derrotados em
Ravenna e surgindo os suíços que, contra a expectativa de Júlio e de
outros, expulsaram os vencedores, o Papa não se tornou prisioneiro nem
dos vencedores, que fugiram, nem de suas tropas auxiliares, por ter
vencido com outras armas que não as delas. Os florentinos, estando
completamente desarmados, levaram dez mil franceses a Pisa para atacá-
la, resolução essa em razão da qual passaram por maior perigo do que
em qualquer tempo de seus próprios trabalhos. O imperador de
Constantinopla, para opor-se a seus vizinhos, concentrou na Grécia dez
mil turcos que, terminada a guerra, não quiseram abandonar o país, o
que constitui o início da sujeição da Grécia aos infiéis.


Assim, aquele que queira não poder vencer, valha-se destas tropas
muito mais perigosas do que as mercenárias, eis que com estas a ruína
é certa, dado que são todas unidas, todas voltadas à obediência a
outrem. As mercenárias, para te prejudicarem após a vitória,
contrariamente ao que ocorre com as mistas, precisam de mais tempo e
maior oportunidade, não só por não constituírem um todo, como também
por terem sido organizadas e pagas por ti; ainda, um terceiro que
nelas tornes chefe, não pode desde logo assumir tanta autoridade que
te cause dano. Enfim, enquanto nas tropas mercenárias o mais perigoso
é a covardia, nas auxiliares é o valor.


Um príncipe prudente, portanto, sempre tem fugido a essas tropas para
voltar-se às suas próprias forças, preferindo perder com as suas a
vencer com aquelas, eis que, em verdade, não representaria vitória
aquela que fosse conquistada com as armas alheias. Jamais vacilarei em
citar como exemplo César Bórgia e suas ações. Este duque entrou na
Romanha com tropas auxiliares, para aí conduzindo as forças francesas,
com elas tomando Imola e Forli. Mas, depois, não mais lhe parecendo
seguras tais armas, voltou-se para as mercenárias, julgando nelas
encontrar menor perigo; e tomou a seu serviço os Orsini e os Viteili.
Posteriormente, manejando essas forças e achando-as dúbias, infiéis e
perigosas, extinguiu-as e voltou-se para as suas próprias tropas. Pode-
se ver facilmente a diferença que existe entre umas e outras dessas
armas, considerando a modificação da reputação do duque entre quando
tinha apenas os franceses e depois os Orsíni e Vitelli, e quando ele
ficou com soldados seus e sob seu próprio comando: sempre se a
encontrará acrescida, e nem foi suficientemente amado senão quando
todos viram que ele era o senhor absoluto de suas tropas.


Eu não queria abandonar os exemplos italianos e mais recentes;
contudo, não desejo esquecer Hierão de Siracusa, um dos acima
indicados por mim. Este, como já disse, tornado pelos siracusanos
chefe dos exércitos, logo reconheceu não ser útil a tropa mercenária,
por serem seus chefes idênticos aos nossos italianos; parecendo-lhe
não poder conservá-los nem dispensá-los, fez cortar todos eles em
pedaços, passando depois a fazer guerra com tropas suas e não com as
de outrem, Quero, ainda, trazer à lembrança uma alegoria do Velho
Testamento feita a este propósito. Oferecendo-se David a Saul para
lutar com Golias, provocador filisteu, Saul, para encorajá-lo,
revestiu-o com suas próprias armaduras, as quais, uma vez envergadas
por David, foram por ele recusadas: com elas não poderia bem se valer
de si mesmo, preferindo enfrentar o inimigo apenas com sua funda e sua
faca. Enfim, as armas de outrem, ou te caem de cima, ou te pesam ou te
constrangem.


Carlos VII, pai de Luís XI, tendo com sua fortuna e sua virtude
libertado a França dos ingleses, conheceu essa necessidade de armar-se
com forças próprias, e organizou em seu reino, por forma regular, as
armas de cavalaria e de infantaria. Mais tarde, o Rei Luís, seu filho,
extinguiu a infantaria e começou a aliciar os suíços, erro esse que,
seguido de outros, tornou-se, como realmente agora se vê, a razão dos
perigos daquele reino, Na verdade, dando reputação aos suíços, Luis
aviltou todas as suas tropas, já que extinguiu as forças de infantaria
e subordinou sua cavalaria às milícias de outrem, e a esta, acostumada
a militar com os suíços, pareceu não ser possível vencer sem eles. Daí
decorre que não bastam os franceses contra os suíços e, sem os suíços,
não tentam a luta contra os outros. Os exércitos de França, pois, têm
sido mistos, parte de mercenários e parte de tropas próprias, forças
essas que, juntas, são muitos melhores que as simples auxiliares ou as
meramente mercenárias e muito inferiores ao exército próprio. Basta o
exemplo citado, pois o reino de França seria invencível, se a
organização militar de Carlos tivesse sido desenvolvida ou conservada.
Mas a pouca prudência dos homens muitas vezes começa uma coisa que lhe
parece boa, sem se aperceber do veneno que ela encobre, como já disse
acima a respeito das febres éticas.


Portanto, aquele que num principado não conhece os males logo no
início, não é verdadeiramente sábio, o que é dado a poucos. E, se se
considerar o início da ruína do Império Romano, ver-se-á ter ela
resultado do simples começo de aliciamento dos godos, eis que foi dai
que começaram a declinar as forças do Império Romano e todo aquele
valor que se lhe tirava era atribuído a eles. Concluo, pois, que, sem
ter armas próprias, nenhum principado está seguro; ao contrário, fica
ele totalmente sujeito à sorte, não havendo virtude que o defenda na
adversidade. Foi sempre opinião e sentença dos homens sábios, quod
nihíl sit tam infirmum aut instabile, quam fama potentiae non sua vi
nixa. As forças próprias são aquelas que se constituem de súditos, de
cidadãos ou de criaturas tuas; todas as outras são ou mercenárias ou
auxiliares. O modo de organizar as tropas próprias será fácil de
encontrar, se se analisar a organização dos quatro por mim
mencionados, e se se considerar como Felipe, pai de Alexandre Magno, e
muitas repúblicas e principados, se armaram e organizaram; a essas
organizações eu me reporto inteiramente.

O PRÍNCIPE - CAPÍTULO XIV

CAPÍTULO XIV
O QUE COMPETE A UM PRÍNCIPE ACERCA DA MILÍCIA (TROPA)
(QUOD PRINCIPEM DECEAT CIRCA MILITIAM)


Deve, pois, um príncipe não ter outro objetivo nem outro pensamento,
nem tomar qualquer outra coisa por fazer, senão a guerra e a sua
organização e disciplina, pois que é essa a única arte que compete a
quem comanda. E é ela de tanta virtude, que não só mantém aqueles que
nasceram príncipes, como também muitas vezes faz os homens de condição
privada subirem àquele posto; ao contrário, vê-se que, quando os
príncipes pensam mais nas delicadezas do que nas armas, perdem o seu
Estado. A primeira causa que te faz perder o governo é negligenciar
dessa arte, enquanto que a razão que te permite conquistá-lo é o ser
professo da mesma.


Francisco Sforza, por estar armado, de cidadão privado que era, tornou-
se duque de Milão; os filhos, para fugir às fadigas das armas, de
duques passaram a simples cidadãos privados. Em verdade, entre outros
males que te acarreta o estares desarmado, ele te torna vil, o que
constitui uma daquelas infâmias de que o príncipe se deve guardar,
como abaixo será exposto. Realmente, entre um príncipe armado e um
desarmado, não existe proporção alguma, e não é razoável que quem
esteja armado obedeça com gosto ao que seja desprovido de armas, nem
que o desarmado se sinta seguro entre servidores armados, eis que,
existindo desdém de parte de um e suspeita do lado do outro, não é
possível ajam bem, estando juntos. Ainda, um príncipe que não entende
de tropas, além dos outros prejuízos referidos, sofre aquele de não
poder ser estimado pelos seus soldados e nem poder neles confiar.


Deve o príncipe, portanto, não desviar um momento sequer o seu
pensamento do exercício da guerra, o que pode fazer por dois modos: um
com a ação, o outro com a mente, Quanto à ação, além de manter bem
organizadas e exercitadas as suas tropas, deve estar sempre em caçadas
para acostumar o corpo às fadigas e, em parte, para conhecer a
natureza dos lugares e saber como surgem os montes, como embocam os
vales, como se estendem as planícies, e aprender a natureza dos rios e
dos pântanos, pondo muita atenção em tudo isso. Esses conhecimentos
são úteis por duas razões: primeiro, aprende-se a conhecer o próprio
país e pode-se melhor identificar as defesas que ele oferece; depois,
em decorrência do conhecimento e prática daqueles sítios, com
facilidade poderá entender qualquer outra região que venha a ter de
observar, eis que as colinas, os vales, as planícies, os rios e os
pântanos que existem, por exemplo, na Toscana, têm certa semelhança
com os das outras províncias, de forma que, do conhecimento do terreno
de uma província, se pode passar facilmente ao de outras. O príncipe
que seja falto dessa perícia, está desprovido do elemento principal de
que necessita um capitão, pois ela ensina a encontrar o inimigo,
estabelecer os acampamentos, conduzir os exércitos, ordenar as
jornadas, fazer incursões pelas terras com vantagem sobre o inimigo.


Filopémenes, príncipe dos Aqueus, dentre os louvores que lhe foram
endereçados pelos escritores, mereceu também aquele de que, nos tempos
de paz, em outra coisa não pensava senão em torno de guerra e, quando
excursionando pelos campos com os amigos, freqüentemente parava e com
eles argumentava: - Se os inimigos estivessem sobre aquela colina e
nós nos encontrássemos aqui com nosso exército, qual de nós teria
vantagem? Como se poderia atacá-los, mantendo a formação da tropa? Se
quiséssemos nos retirar, como deveríamos proceder? Se eles se
retirassem, como faríamos para persegui-los? - E propunha-lhes,
andando, todos os casos que possam ocorrer em um exército; ouvia a
opinião dos mesmos, dava a sua corroborando-a com argumentos, de
maneira tal que, em razão dessas contínuas cogitações, jamais poderia,
comandando os exércitos, encontrar pela frente algum imprevisto para o
qual não tivesse solução.


Mas, quanto ao exercício da mente, deve o príncipe ler as histórias e
nelas observar as ações dos grandes homens, ver como se conduziram nas
guerras, examinar as causas de suas vitórias e de suas derrotas, para
poder fugir às responsáveis por estas e imitar as causadoras daquelas;
deve fazer, sobretudo, como, em tempos idos, fizeram alguns grandes
homens que imitaram todo aquele que antes deles foi louvado e
glorificado, e sempre tiveram em si os gestos e as ações do mesmo,
como se diz que Alexandre Magno imitava a Aquiles, César a Alexandre,
Cipião a Ciro. Quem lê a vida de Ciro escrita por Xenofonte percebe,
depois, na vida de Cipião, o quanto lhe valeu para a glória aquela
imitação, bem como o quanto na castidade, afabilidade, humanidade e
liberalidade, Cipião se assemelhava àquilo que Xenofonte escreveu de
Ciro. Um príncipe inteligente deve observar essa semelhança de
proceder, nunca ficando ocioso nos tempos de paz, mas sim, com
habilidade, procurar formar cabedal para poder utilizá-lo na
adversidade, a fim de que, quando mudar a fortuna, se encontre
preparado para resistir

O PRÍNCIPE - CAPÍTULO XV

CAPÍTULO XV
DAQUELAS COISAS PELAS QUAIS OS HOMENS, E ESPECIALMENTE OS PRÍNCIPES,
SÃO LOUVADOS OU VITUPERADOS
(DE HIS REBUS QUIBUS HOMINES, ET PRAESERTIM PRINCIPES, LAUDANTUR AUT
VITUPERANTUR)


Resta ver agora quais devam ser os modos e o proceder de um príncipe
para com os súditos e os amigos e, por que sei que muitos já
escreveram a respeito, duvido não ser considerado presunçoso
escrevendo ainda sobre o mesmo assunto, máxime quando irei disputar
essa matéria à orientação já por outros dada aos príncipes. Mas, sendo
minha intenção escrever algo de útil para quem por tal se interesse,
pareceu-me mais conveniente ir em busca da verdade extraída dos fatos
e não à imaginação dos mesmos, pois muitos conceberam repúblicas e
principados jamais vistos ou conhecidos como tendo realmente existido.
Em verdade, há tanta diferença de como se vive e como se deveria
viver, que aquele que abandone o que se faz por aquilo que se deveria
fazer, aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua
preservação, eis que um homem que queira em todas as suas palavras
fazer profissão de bondade, perder-se-á em meio a tantos que não são
bons. Donde é necessário, a um príncipe que queira se manter, aprender
a poder não ser bom e usar ou não da bondade, segundo a necessidade.


Deixando de parte, assim, os assuntos relativos a um príncipe
imaginário e falando daqueles que são verdadeiros, digo que todos os
homens, máxime os príncipes por situados em posição mais preeminente,
quando analisados, se fazem notar por alguns daqueles atributos que
lhes acarretam ou reprovação ou louvor. Assim é que alguns são havidos
como liberais, alguns miseráveis (usando um termo toscano, porque
"avaro" em nossa língua é ainda aquele que deseja possuir por rapina,
enquanto "miserável" chamamos aquele que se abstém em excesso de usar
o que possui); alguns são tidos como pródigos, alguns rapaces; alguns
cruéis, alguns piedosos; um fedífrago, o outro fiel; um efeminado e
pusilânime, o outro feroz e animoso; um humano, o outro soberbo; um
lascivo, o outro casto; um simples, o outro astuto; um duro, o outro
fácil; um grave, o outro leviano; um religioso, o outro incrédulo, e
assim por diante.


Sei que cada um confessará que seria sumamente louvável encontrarem-se
em um príncipe, de todos os atributos acima referidos, apenas aqueles
que são considerados bons; mas, desde que não os podem possuir nem
inteiramente observá-los em razão das contingências humanas não o
permitirem, é necessário seja o príncipe tão prudente que saiba fugir
à infâmia daqueles vícios que o fariam perder o poder, cuidando evitar
até mesmo aqueles que não chegariam a pôr em risco o seu posto; mas,
não podendo evitar, é possível tolerá-los, se bem que com quebra do
respeito devido. Ainda, não evite o príncipe de incorrer na má faina
daqueles vícios que, sem eles, difícil se lhe torne salvar o Estado;
pois, se bem considerado for tudo, sempre se encontrará alguma coisa
que, parecendo virtude, praticada acarretará ruína, e alguma outra
que, com aparência de vício, seguida dará origem à segurança e ao bem-
estar.

O PRÍNCIPE - CAPÍTULO XVI

CAPÍTULO XVI
DA LIBERALIDADE E DA PARCIMÔNIA
(DE LIBERALITATE ET PARSIMONIA)


Começando, pois, com os primeiros dos já referidos atributos, digo que
seria um bem o ser havido como liberal. Contudo, a liberalidade, usada
por forma que se torne conhecida de todos, te prejudica, porque, se
usada virtuosamente e como se a deve usar, ela não se torna conhecida
e não conseguirás tirar de cima de ti a má fama do seu contrário;
porém, querendo manter entre os homens o nome de liberal, é preciso
não esquecer nenhuma espécie de suntuosidade, de forma tal que um
príncipe assim procedendo consumirá em ostentação todas as suas
finanças e terá necessidade de, ao final, se quiser manter o conceito
de liberal, gravar extraordinariamente o povo de impostos, ser duro no
fisco e fazer tudo aquilo de que possa se utilizar para obter
dinheiro. Isso começará a torná-lo odioso perante o povo e,
empobrecendo-o, fá-lo-á pouco estimado de todos; de forma que, tendo
ofendido a muitos e premiado a poucos com essa sua liberalidade, sente
mais intensamente qualquer revés inicial e periclita face ao primeiro
perigo. Percebendo isso e querendo recuar, o príncipe incorre desde
logo na má fama de miserável.


Um príncipe, pois, não podendo usar essa qualidade de liberal sem
sofrer dano, tornando-a conhecida, deve ser prudente, deve não se
preocupar com a pecha de miserável, eis que, com o decorrer do tempo,
será considerado sempre mais liberal, uma vez vendo o povo que com sua
parcimônia a receita lhe basta, pode defender-se de quem lhe mova
guerra e tem possibilidade de realizar empreendimentos sem gravar o
povo; assim agindo, vem a usar liberalidade para com todos aqueles dos
quais nada tira, que são numerosos, e a empregar miséria para com
todos os outros a quem não dá, que são poucos. Nos nossos tempos não
temos visto grandes realizações senão daqueles que foram havidos por
miseráveis, enquanto vimos os outros serem extintos. O Papa Júlio II,
como utilizou a fama de liberal para atingir ao papado, não pensou
depois em conservá-la, para poder fazer guerra; o atual rei de França
fez tantas guerras sem lançar um tributo extraordinário sobre seus
súditos, somente porque sobrepôs sua parcimônia às despesas
supérfluas. O presente rei de Espanha, se havido como liberal, não
teria realizado nem vencido em tantos empreendimentos.


Portanto, um príncipe deve gastar pouco para não precisar roubar seus
súditos, para poder defender-se, para não ficar pobre e desprezado,
para não ser forçado a tornar-se rapace, não se importando de incorrer
na fama de miserável, porque esse é um daqueles defeitos que o fazem
reinar. E se alguém dissesse que César alcançou o Império pela
liberalidade, sem contar muitos outros que têm sido ou são
considerados liberais e atingiram altíssimos postos, eu responderia:
ou tu já és príncipe ou estás em via de o ser. No primeiro caso, essa
liberalidade é prejudicial, no segundo é bem necessário ser
considerado liberal; e César era um daqueles que queriam ascender ao
principado de Roma, mas se, depois que o alcançou, tivesse vivido e
não tivesse usado comedimento nas despesas, teria destruído o Império.
E se alguém replicasse que houve muitos príncipes, tidos como
extremamente liberais, que realizaram grandes feitos com seus
exércitos, responderia: ou o príncipe gasta do seu, ou de seus
súditos, ou de outrem; no primeiro caso, deve ser parcimonioso; nos
outros, não deve deixar de praticar nenhuma liberalidade.


E aquele príncipe que vai com os exércitos, que se mantém de
rapinagem, de saques e de resgates, maneja bens de outros, tem
necessidade dessa liberalidade porque, do contrário, não será seguido
pelos soldados. E, daquilo que não é teu nem de súditos teus, podes
ser o mais generoso doador, como o foram Ciro, César e Alexandre, eis
que o despender aquilo que é dos outros não te tira reputação, ao
contrário, a aumenta; somente o gastar o teu é que te prejudica. E não
há coisa que tanto se destrua a si mesma como a liberalidade, pois,
enquanto tu a usas, perdes a faculdade de utilizá-la, tornando-te
pobre e desprezado ou, para fugir à pobreza, rapace e odioso. Dentre
todas as coisas de que um príncipe se deve guardar está o ser
desprezado e odiado, e a liberalidade te conduz a uma e a outra dessas
coisas. Portanto, é mais sabedoria ter a fama de miserável, que dá
origem a uma infâmia sem ódio, do que, por querer o conceito de
liberal, ver-se na necessidade de incorrer no julgamento de rapace,
que cria uma má fama com ódio.